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Os Segredos do Golpe de 1964 no Brasil: EUA no Centro da Trama, Cuba e URSS à Margem, revelam documentos desclassificados pelo governo Trump em 2025

Por Wellington Sena

 

Os documentos desclassificados pelo governo Trump em 18 de março de 2025, liberados pelos Arquivos Nacionais dos EUA, lançam uma luz renovada e intrigante sobre o golpe militar que mudou o destino do Brasil em 1964. Esses arquivos, parte de uma promessa de campanha de Donald Trump para expor segredos da Guerra Fria, detalham o papel central dos Estados Unidos na derrubada do presidente João Goulart, enquanto deixam Cuba e a União Soviética como coadjuvantes improváveis na trama. O que emerge é uma história de intervenção estrangeira, paranoia geopolítica e uma narrativa oficial que pode ter sido construída sobre exageros.

O golpe de 31 de março de 1964, liderado pelo Exército Brasileiro sob o comando do General Humberto Castello Branco, foi um marco na história do país, inaugurando 21 anos de ditadura militar. Durante décadas, a justificativa oficial apontou o temor de uma guinada comunista sob Goulart, o “Jango”, como o estopim da ação. Agora, os documentos de 2025, incluindo telegramas da CIA e do Departamento de Estado, mostram que esse medo foi amplificado e instrumentalizado pelos Estados Unidos, que viam o Brasil como um peça-chave no xadrez da Guerra Fria na América Latina.

Um dos protagonistas dessa trama foi Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil à época. Em um telegrama datado de 27 de março de 1964, Gordon alertou Washington sobre o risco de o Brasil se tornar “a China dos anos 1960” caso Goulart permanecesse no poder. Ele descreveu o presidente como um líder perigoso, supostamente alinhado a forças comunistas, embora historiadores contestem essa visão como uma interpretação alarmista para justificar a intervenção. Os documentos confirmam que Gordon não estava sozinho em sua preocupação: o governo americano já monitorava o Brasil desde o início da década de 1960.

A resposta dos EUA foi a Operação Brother Sam, um plano secreto detalhado nos arquivos de 2025. Essa operação mobilizou uma força naval – incluindo porta-aviões, destroyers e toneladas de combustível – para apoiar logisticamente os militares brasileiros caso o golpe enfrentasse resistência significativa. Embora Goulart tenha sido deposto em menos de 48 horas, sem que os navios precisassem intervir, os registros mostram a extensão do compromisso americano: garantir que o Brasil permanecesse fora da órbita soviética a qualquer custo.

Além do apoio militar, os EUA investiram em uma guerra de narrativas. Os documentos revelam que o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), financiado pela CIA, despejou recursos em propaganda anticomunista antes do golpe. Campanhas nas rádios e jornais pintavam Goulart como um radical prestes a entregar o país ao comunismo, influenciando a opinião pública e enfraquecendo sua base de apoio. Essa estratégia começou a dar frutos já nas eleições de 1962, quando candidatos conservadores, respaldados por esses fundos, ganharam terreno.

Outro ponto crucial foi o treinamento de oficiais brasileiros pelos EUA. Castello Branco, por exemplo, serviu na Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, lutando ao lado dos Aliados e estreitando laços com militares americanos. Esse alinhamento ideológico, reforçado por décadas de cooperação, é destacado nos documentos como um fator que facilitou a coordenação do golpe. Para os EUA, o Brasil não era apenas um aliado potencial, mas uma fortaleza contra a expansão comunista na América do Sul.

Enquanto os Estados Unidos emergem como arquitetos do golpe, os documentos de 2025 lançam dúvidas sobre o papel de Cuba e da União Soviética. Durante anos, especulou-se que Fidel Castro e os soviéticos poderiam ter tentado armar ou influenciar Goulart para resistir ao avanço militar. No entanto, os arquivos da CIA, indicam que qualquer envolvimento foi mínimo e tardio, se é que existiu antes do golpe.

Sobre Cuba, há registros de que cerca de 50 brasileiros, ligados às Ligas Camponesas e ao Partido Comunista Brasileiro, receberam treinamento guerrilheiro em Havana entre 1961 e 1963. Esses dados aparecem em relatórios da CIA, mas não há evidências de que armas ou suprimentos tenham sido enviados ao Brasil para sustentar Goulart. Após o golpe, Cuba apoiou movimentos como o Movimento Revolucionário Tiradentes, mas isso só ocorreu anos depois, em resposta à ditadura já instalada.

A União Soviética, por sua vez, parece ter sido pega desprevenida. Um relatório da CIA sugere que o serviço secreto tchecoslovaco, o StB, aliado dos soviéticos, mantinha atividades de inteligência no Brasil, mas sem impacto significativo. Uma anedota reveladora vem de Plínio de Arruda Sampaio, ativista socialista da época, que relatou um aviso do embaixador soviético a Goulart: a URSS não tinha recursos para sustentar o Brasil como fazia com Cuba. Os documentos de 2025 corroboram essa cautela, mostrando que Moscou não planejava uma intervenção direta.

A ausência de uma ameaça armada concreta de Cuba ou URSS levanta uma questão incômoda: o golpe foi realmente uma resposta a um perigo iminente ou uma jogada preventiva dos EUA? Os arquivos sugerem que a percepção de risco foi amplificada por relatórios exagerados da CIA e por Gordon, que via comunismo em cada reforma proposta por Goulart, como a agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras. Essa paranoia foi alimentada por uma Guerra Fria em seu auge, com os EUA determinados a evitar outro “Castro” na região.

Um relatório curioso de 6 de fevereiro de 1963, vindo do Consulado Geral dos EUA em São Paulo, oferece um vislumbre da sociedade brasileira pré-golpe. Ele mostra que 80% dos trabalhadores semi-qualificados na cidade estavam abertos a um governo comunista, atraídos pela promessa de menos corrupção e melhores condições de vida. Já a elite empresarial, com raras exceções como Paulo Ayres Filho, do IPES, subestimava essa possibilidade, criando um vácuo que os militares e os EUA preencheram com suas ações.

Esse contraste social ajuda a explicar por que o golpe encontrou pouca resistência. Goulart, apesar de suas reformas populares, não tinha uma base armada ou apoio internacional sólido para contra-atacar. Os documentos mostram que seus contatos com Castro e Brizola, embora reais, eram mais diplomáticos do que operacionais, carecendo de força para alterar o curso dos eventos. O Exército Brasileiro, respaldado pelos EUA, venceu quase sem disparar um tiro.

A narrativa oficial do golpe, que o apresenta como uma defesa da democracia contra o “caos comunista”, começa a ruir com essas revelações. Os arquivos de 2025 sugerem que o Brasil foi palco de uma intervenção estrangeira planejada para proteger interesses americanos, mais do que para responder a uma ameaça interna real. A falta de evidências sobre armas cubanas ou soviéticas reforça a ideia de que o “perigo vermelho” foi um espantalho conveniente.

Historiadores já debatem o que esses documentos significam para a memória nacional. Para alguns, como o professor Carlos Fico, da UFRJ, eles confirmam o que já se suspeitava: os EUA tiveram um papel ativo na desestabilização de Goulart. Para outros, a ausência de ação concreta de Cuba e URSS levanta novas perguntas sobre a autonomia do Exército Brasileiro na decisão de agir ou se foi apenas um executor de ordens externas.

Nas redes sociais, como o X, blogueiros independentes especulam que mais documentos podem estar por vir. Alguns apontam que os arquivos liberados até agora, embora volumosos, parecem seletivos, omitindo detalhes sobre negociações secretas ou outras potências. Um usuário no X sugeriu que a verdadeira bomba seria um registro de encontros entre Goulart e emissários cubanos em 1963, mas nada disso apareceu nos arquivos desclassificados de 2025.

A reação pública também reflete a polarização atual. Enquanto setores conservadores celebram o golpe como um “mal necessário”, movimentos de esquerda veem nos documentos uma prova de imperialismo americano. Em Brasília, um grupo de ativistas planeja uma vigília para 31 de março, marcando os 61 anos do golpe, com faixas exigindo “verdade total” sobre 1964.

O impacto internacional não passa despercebido. Países vizinhos, como a Argentina, que também sofreram golpes apoiados pelos EUA, começam a pedir acesso aos arquivos de 2025. Analistas sugerem que essas revelações podem reacender debates sobre soberania na América Latina, especialmente em um momento de tensões renovadas entre Washington e potências como a China.

Para o Brasil, os documentos de 2025 são um convite à reflexão. Eles mostram um país apanhado no fogo cruzado da Guerra Fria, com os EUA moldando seu destino enquanto Cuba e URSS assistiam de longe. A ditadura que se seguiu, com suas violações de direitos humanos e censura, foi o preço pago por essa intervenção – um preço que, agora, pode ser melhor compreendido.

O processo de desclassificação continua, com os Arquivos Nacionais prometendo mais liberações até julho de 2025, conforme o prazo do decreto de Trump. Até lá, o Brasil e o mundo aguardam para ver se novos segredos virão à tona, ou se o que já foi revelado é apenas a ponta de um iceberg muito maior. Por enquanto, uma coisa é clara: o golpe de 1964 foi menos sobre comunismo interno e mais sobre o tabuleiro global onde o Brasil, quer quisesse ou não, era uma peça disputada.

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Wellington Sena é servidor público federal, professor de matemática e autor de artigos e publicações que abordam uma variedade de temas, incluindo história, geopolítica, economia, ficção e análise crítica de obras religiosas. . Seus livros podem ser encontrados na Amazon.