Por Wellington Sena
Nos últimos 300 anos, o carvão desempenhou um papel central na transformação da matriz energética global, moldando a economia, a política e a geografia das nações. O surgimento do carvão como matéria-prima dominante remonta ao final do século XVIII, com a Revolução Industrial na Inglaterra. As minas de carvão abasteciam as máquinas a vapor, locomotivas e indústrias, proporcionando energia abundante e barata. A partir do século XIX, o carvão se consolidou como o combustível que impulsionou o desenvolvimento econômico e urbano em países como Reino Unido, Alemanha e França, transformando-os em potências globais.
O consumo do carvão cresceu de forma exponencial. Em 1850, a produção mundial de carvão era de aproximadamente 50 milhões de toneladas. Em 1900, esse número saltou para 800 milhões de toneladas, refletindo o boom industrial. O carvão alimentava não apenas a indústria, mas também sistemas de aquecimento e transporte. A Alemanha, com sua vasta rede de mineração, se tornou um polo industrial, enquanto o Reino Unido, em seu auge, produzia 75% do carvão consumido no mundo, sendo considerado o “berço da revolução industrial”.
Com o advento do petróleo e do gás natural no século XX, muitos acreditaram que o carvão perderia espaço. De fato, o carvão cedeu parte de sua relevância, mas nunca deixou de ser uma peça-chave na matriz energética global. Durante a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a demanda por carvão disparou novamente, sendo fundamental para os esforços bélicos e reconstruções industriais. Países como a Polônia, a União Soviética e os Estados Unidos mantiveram investimentos pesados em mineração e infraestrutura associada.
No entanto, a promessa de uma transição completa para fontes energéticas mais limpas no século XXI ainda não se concretizou. Apesar dos compromissos globais de descarbonização, o carvão continua sendo amplamente consumido, especialmente em países europeus e asiáticos. Em 2022, a Alemanha, considerada líder em transição energética, dependia do carvão para 33% de sua matriz elétrica, reflexo das decisões políticas de desativar usinas nucleares após o desastre de Fukushima. A crise energética recente, agravada pela guerra na Ucrânia, forçou a reabertura de usinas de carvão inativas.
A Polônia é um caso emblemático. Cerca de 70% de sua energia elétrica é gerada a partir do carvão, o que coloca o país como um dos maiores consumidores dessa fonte na União Europeia. Apesar das pressões de Bruxelas e das metas climáticas, a economia polonesa segue atrelada ao carvão, que sustenta milhares de empregos e regiões mineradoras inteiras. A República Tcheca e a Bulgária enfrentam desafios semelhantes, com dependências superiores a 40% de carvão para suas necessidades energéticas.
O encobrimento midiático dessa realidade ocorre de forma estratégica. Enquanto governos europeus proclamam suas metas de transição para energias renováveis, o uso contínuo do carvão é omitido em grande parte dos discursos públicos. A narrativa de uma Europa verde frequentemente ignora que, em 2021, a demanda mundial de carvão atingiu 8 bilhões de toneladas, o maior patamar histórico. Esse aumento foi impulsionado pelo crescimento econômico pós-pandemia e pela crise energética.
Além disso, a China e a Índia, responsáveis por 66% do consumo global de carvão, justificam seu uso intensivo como medida para garantir a segurança energética e atender suas crescentes demandas industriais e populacionais. A China, por exemplo, inaugurou em 2022 novas usinas a carvão capazes de produzir 45 gigawatts de energia, enquanto simultaneamente lidera investimentos em energia solar e eólica. Esse paradoxo revela a dificuldade global de substituir o carvão de forma integral.
O consumo europeu, embora menor em comparação com a Ásia, ainda possui um peso significativo. A Alemanha, por exemplo, importou 40 milhões de toneladas de carvão em 2022, um aumento de 20% em relação ao ano anterior, mostrando a dificuldade de abandonar completamente essa fonte em tempos de crise. A dependência de países como Polônia e Grécia desafia as políticas de transição energética impostas pela União Europeia.
O carvão, apesar de seus impactos ambientais severos, como as emissões de CO₂ e o agravamento do aquecimento global, continua sendo uma solução econômica para países em desenvolvimento e uma opção emergencial para nações ricas em momentos de instabilidade. A infraestrutura existente, construída ao longo de séculos, representa um desafio econômico e técnico para a transição completa. Reestruturar redes elétricas e substituir usinas a carvão exige investimentos bilionários e décadas de implementação.
Em contrapartida, a mídia frequentemente foca nos avanços das energias renováveis, como solar e eólica, enquanto minimiza o papel que o carvão ainda desempenha. Em 2023, mais de 25% da energia global ainda era gerada a partir dessa fonte, consolidando o carvão como uma matéria-prima resiliente diante das transformações energéticas. O uso do carvão continua a crescer em países africanos e sul-americanos, onde os recursos financeiros limitados dificultam investimentos em alternativas renováveis.
A transição energética não é homogênea, e a persistência do carvão revela desigualdades econômicas e geopolíticas. Países ricos, como os da Europa Ocidental, têm mais recursos para subsidiar a transição, enquanto nações emergentes enfrentam dilemas entre crescimento econômico e sustentabilidade. A falta de um substituto renovável que combine baixo custo, capacidade de geração contínua e segurança energética contribui para a continuidade do uso do carvão.
O carvão, outrora símbolo de progresso, tornou-se um desafio ambiental e econômico. No entanto, sua história e realidade atual demonstram que o sistema energético global ainda está longe de uma transição definitiva. O discurso de um futuro verde é, muitas vezes, uma retórica política desconectada da realidade concreta. Até que as tecnologias de armazenamento de energia renovável e redes elétricas inteligentes estejam amplamente disponíveis, o carvão continuará sendo, para muitos, uma solução inevitável.
Portanto, o carvão, em sua dualidade histórica de motor do progresso e vilão ambiental, permanece uma peça-chave na matriz energética global. Sua persistência, mesmo em países considerados modelos de sustentabilidade, revela a complexidade dos desafios enfrentados. A transição para um sistema energético realmente limpo e justo exigirá não apenas inovação tecnológica, mas também coragem política e um compromisso global com as próximas gerações.
Fonte: ESCRAVOS DO SISTEMA (Sena, Wellington. 2024, Amazon): https://a.co/d/gafm9V6